domingo, 10 de fevereiro de 2013

Entrevista Royce Gracie



Você ainda assiste ao UFC atualmente?

-Assisto. Assisto mais ao lutador do que ao evento todo. Tem alguns caras que gosto mais de assistir do que ao evento inteiro e ao show.

Quais são esses lutadores que você mais gosta de ver? Quais são os seus lutadores favoritos?

-Anderson Silva... Os caras que estão no topo, que sabem usar a estratégia. É o Anderson Silva, o (Georges) St-Pierre, o Nick e Nate Diaz, Gilbert Melendez, o Cain Velásquez, os pesos-pesados, (Junior) Cigano... Os caras que sabem usar a estratégia, que não estão ali só para trocação de soco, para bater um no outro e arrebentar a cara do adversário. Demian Maia, muito bom de estratégia, não está lá só para trocação, porque "sou valente, sou casca grossa"...

Então você tem uma mentalidade diferente da do Rorion (Gracie, irmão de Royce que criou o UFC), que diz não assistir mais porque não é mais briga de verdade, não é mais aquela coisa do UFC 1 e por ser mais difícil para o cara do jiu-jítsu. Para você, não importa se o lutador vem do jiu-jítsu ou não, você gosta de assistir esses caras lutando.

-Gosto de assistir aos caras que sabem usar estratégia. Tem uns que entram ali para trocação, do tipo brigador, valente. Isso não me chama a atenção. Os caras que sabem usar a técnica, fazem a luta ficar fácil, esses eu gosto de assistir, que eu sei que a luta não é fácil. Ele chega ali e domina o adversário e faz parecer ficar fácil, isso quer dizer que ele usou a estratégia perfeita, conseguiu tirar o adversário dele, que é o maior casca grossa, do esquema e fazer ele parecer com nada. Não tem lutador fácil, todo mundo é difícil, não tem esse negócio de "esse cara é fácil para ele". Não tem disso. Ele faz parecer que é fácil, isso quer dizer que está usando a estratégia certa.


Você estava usando, na pesagem do UFC 156, uma camisa que dizia, em inglês, "Eu fazia antes de ser legal", e muita gente da sua época, do vale-tudo, reclama que hoje em dia é mais fácil, que antes não tinha classe de peso... Como você vê o MMA hoje? É melhor agora, ou era mais legal antes?

-A regra é igual para os dois. É como um aluno meu veio falar comigo: "Eu gostaria de lutar no peso até 70kg, eu peso 75kg, perco cinco quilos para lutar, mas vou lutar com um cara que está pesando 90kg e baixa para 70kg". Ué, então por que você não baixa para 50kg? A regra é igual para os dois. Você não consegue baixar de peso? Os dois vão lutar no mesmo peso. "Não, mas se ele me bota para baixo..." Por que você não bota ele para baixo então? A regra é igual para os dois. Não está favorecendo a ninguém. Se a luta fica parada, o juiz vem e manda levantar, então não deixa a luta parar. Se mexe o tempo todo. Não tem disso. No começo, realmente, era mais "cru", não tinha luva, mas também, ao mesmo tempo de não ter luva, você não podia bater no cara muitas vezes. Você vai bater uma ou duas vezes só, porque depois disso vai quebrar sua mão. A luva está ali para proteger a mão do lutador, não para proteger a cara. Na época, não tinha divisão de peso. Quer lutar com um mais pesado? Então, sobe de categoria! Ganha peso (risos). A regra é igual para os dois.

Como você acha que se sairia, se ainda tivesse a idade que tinha no UFC 1, nessa era do MMA com regras e com tempo?

-Como é que eles se sairiam tendo que lutar quatro vezes numa noite? Bota o José Aldo tendo que lutar quatro vezes numa noite, sem limite de peso, como é que ele se sairía? (risos) Ele é bom para burro, bom à beça, mas... Bota o Demian Maia tendo que lutar quatro vezes numa noite. Uma já é difícil hoje, imagina quatro, sem peso, sem regra, sem luva, sem tempo.

Você acha que esse formato de hoje prejudica seu estilo de luta, o estilo do jiu-jítsu?

-Não é que prejudica. De novo, vou dizer: as regras são iguais para os dois. Mas, a mentalidade minha e da minha família... Não sou um super-homem, não tenho poderes especiais. O que a gente diz sempre é que não vou entrar para ganhar do adversário. Estou aqui para não perder. Se eu não perder, para mim, eu ganhei. Eu não posso perder, a mentalidade é essa. É um sistema de defesa pessoal, não é um sistema de ataque pessoal. É isso que ensinamos, um sistema de defesa. Tanto que não tem soco, não tem chute... Tem o pisão, que é defensivo, mas eu não vou partir para dentro, "vou quebrar a cara dele", não tem disso. Vou me defender. Quando você errar, eu ganho, com uma chave de braço, um estrangulamento... Mas, é um sistema de defesa pessoal. Dizer que prejudica hoje... Em realidade, na rua, não tem tempo. Você não escolhe peso na rua. É um evento, é um show, eu concordo e eu apóio, mas, na realidade, se um cara beliscar a bunda da sua mulher na rua, você não vai perguntar, "Meu amigo, vem cá, quanto é que você pesa? É, meu amor, ele não está na minha categoria, senão eu batia nele." Não tem isso. Não se escolhe peso, nem adversário na rua.

Quem você acha que representa melhor o estilo e filosofia Gracie de luta atualmente?

-Tem o Roger (Gracie), que está lutando bem para caramba, e o Demian Maia, que são caras que vêm do jiu-jítsu e não estão preocupados em ficar trocando boxe com o adversário. No boxe, quando você bate, ele te bate também. O braço é um pouquinho mais longo, um pouquinho mais curto, mas, quando você me acerta, eu te acerto também. Qualquer um pode cair. O Roger e o Demian Maia entram em clinche, botam os caras para o chão e fazem o que sempre fizeram, que é o jiu-jítsu. Não entram na sorte do boxe.

Dois caras que falam bastante de "Gracie Jiu-Jítsu" são os irmãos Diaz. Você acha que eles representam bem a filosofia da família? 
Uma vez, o César Gracie disse que sim, que eles representam bem o estilo desafiador da família. Você concorda com isso?

-Representam. O pessoal às vezes diz que os garotos são arrogantes... São casca grossa, não correm de pau. Teve uma vez que eles brigaram no meio do ringue, todo mundo reclamou. Eu falei, "Para." Se isso acontecesse com a gente - eu estivesse dando entrevista, o adversário passasse e começasse a me peitar - você acha que meus irmãos não iam agarrar o pescoço dele, não iam pular em cima dele? O adversário faltou com o respeito, tanto que o Jake Shields não entendeu, "Acabei de lutar, acabei de ganhar, está me peitando? Qual foi, que que houve?" Os caras já caíram em cima dele. Não estavam errados, não. Representam bem, eu gosto deles também.

Você acha que o Roger pode ser um atleta de ponta no UFC?

-Já é. Está todo mundo preocupado com ele. Ele compete como peso-médio. 

Você acha que ele tem chance de ameaçar o reinado do Anderson Silva?

-O Roger tem. O Roger está chegando, devagarinho, mas está todo mundo de olho nele. Ele está chegando tranquilo, começando por baixo, não está dizendo que "Sou Gracie, me coloca logo para disputar o título"... Não, está começando por baixo, fazendo um servicinho certo.

Você tem contato com os lutadores brasileiros mais renomados, como Anderson Silva, Vitor Belfort, Rodrigo Minotauro? Como é seu contato com esses caras? Tem a oportunidade de conversar com eles diretamente?

-Eu estou sempre tão ocupado viajando pelo mundo... Eu me encontro com eles aqui no UFC. E, sempre que a gente se encontra, nunca tem privacidade, está sempre todo mundo em cima, puxando um para um lado, outro para o outro... A gente fala, "Me liga, vamos conversar aí depois", "Está bom, vamos nos ver amanhã", sempre assim (risos).

Tem uma história contada no livro do Fellipe Awi, "Filho Teu Não Foge À Luta", que você foi tirar satisfação com o Anderson Silva por ter feito uma imitação sua. Como foi isso?

-Eu falei com ele, ele estava lá em Abu Dhabi. Eu vi na internet ele fazendo uma graça uma vez, imitando vários lutadores. Falei, "Vem cá, isso não está certo. Está gozando com a gente, está gozando os outros lutadores?" Ele disse, "Não, não, desculpa, mestre, foi brincadeira, sem querer ofender a ninguém." Não foi bem tirar satisfação como o Wanderlei (Silva) fez com o Chael Sonnen. Aquele foi diferente, aquilo ali foi tirar satisfação! (risos) Com o outro foi mais mostrar um ponto, "Não estou te entendendo, eu te conheço, sou seu amigo, e você está me gozando na internet? Gozando os outros lutadores?" Não sei quem ele conhece, com quem ele se dá, mas, na hora, ele já se desculpou, foi tudo sem querer ofender a ninguém. Não foi tirar satisfação.
Essa é a diferença entre eu e a maioria deles, não vou dizer todos. Eu sou um lutador profissional o tempo todo, não é durante um período. Não é para dizer para as gatinhas, 'Aí, gatinha, sou lutador profissional do UFC, você quer uma cerveja?' Não bebo, não fumo, não vivo na noite, droga nenhuma"

O MMA chegou a um patamar tão elevado no Brasil que caras como o Anderson Silva, Vitor Belfort, Wanderlei Silva e Minotauro são alguns dos maiores ídolos do esporte no país hoje em dia. Você acha que eles representam bem o papel de ídolos? Acha que a conduta deles como pessoas é legal?

-Sem comentários. (risos) Eu não conheço os caras pessoalmente. Eu estava dando uma entrevista no Japão uma vez depois de vencer uma luta e o repórter me perguntou, "Quando termina a luta e você vai celebrar, você bebe o quê? Uma cerveja, um vinho?" Eu disse que não bebo nada. "Por que não?" Por que eu deveria beber? "Para celebrar! Todo mundo, depois que vence, celebra!" Celebrar o que? Eu falei para ele, essa é a diferença entre eu e a maioria deles, não vou dizer todos. Eu sou um lutador profissional o tempo todo, não é durante um período. Não é para dizer para as gatinhas, "Aí, gatinha, sou lutador profissional do UFC, você quer uma cerveja?" Não bebo, não fumo, não vivo na noite, droga nenhuma... Comida, regime da Dieta Gracie. O que você quer dizer que é o ídolo, o que é o ídolo? Tem que tomar cuidado para não misturar as coisas. O cara que é ídolo, está ali representando, mas está fumando cigarro, um charuto, está bebendo... Para você, talvez esse seja um ídolo perfeito, a mensagem que ele está dando. Eu já não concordo. Mas eu não conheço os caras que você mencionou pessoalmente, não sei se eles bebem, se eles fumam, se usam drogas, é difícil comentar.

Por que você acha que a mídia brasileira demorou tanto a abraçar o MMA e o UFC?

-Isso nasceu no Brasil, nasceu lá. Se você for no Rorion, ele tem os livros do meu pai, que ele recortava as reportagens do O Globo, O Dia, Jornal do Brasil, tinha vários, tem três livros enormes só de artigos... Na época do Hélio, tinha uma cobertura midiática, mas, pelo menos desde a criação do UFC, nos últimos 20 anos, só foi realmente estourar, chegar na Globo e ter uma maior cobertura nos últimos três anos. Dizem que o "boom" no Brasil foi a luta entre o Anderson Silva e o Vitor Belfort, que foi quando todo mundo passou a assistir o MMA... É questão de educação. No começo aqui nos Estados Unidos, diria que pelo menos nos primeiros 10 UFCs, diziam que isso aqui era o jogo da morte, é violência na televisão, não precisa disso... É questão de educação, ensinar o povo e ensinar quem está lá em cima. Às vezes, o pessoal que está no controle não quer fazer mudança, não quer aceitar. É o que eu digo: se o vale-tudo, só porque o nome diz "vale-tudo", ou MMA, é violento, crianças quebram o pé, quebram o joelho, quebram o cotovelo, se machucam todo ano jogando futebol. Então vamos considerar o futebol um jogo violento? Meu filho joga futebol no time da escola dele. Uns amigos dele quebraram o nariz jogando futebol. Como pode isso? Eu nunca quebrei o nariz brigando. Estava até gozando os pais dos amigos dele, "Está vendo? Eu luto há 20 anos e nunca quebrei o nariz." (risos) Ele estava jogando, virou, acertou o cotovelo e quebrou o nariz; acidente. Vamos considerar então o futebol, esporte mais popular do mundo, violento? É questão de educação. Na Fórmula 1, o que tem de piloto com patrocínio de cigarro e bebida alcóolica, isso quer dizer que vamos fumar, beber e dirigir? É essa a mensagem que eles estão mandando? (risos) E depois eles dizem, "Não dirijam e bebam! Não pode beber e dirigir ao mesmo tempo! Você vai ser punido!" Mas olha a Fórmula 1, que todo carro tem patrocínio de bebida. É isso que eles estão dizendo? "Beba e dirija"? É questão de educação do povo. Tem que educar.

Na sua época, os lutadores enfrentavam qualquer um, não podiam escolher adversário. Hoje, não podemos dizer a mesma coisa. Vamos pegar o maior ídolo do MMA brasileiro hoje, o Anderson Silva, que muitos acusam de recusar adversário, que ele não quer enfrentar Chris Weidman, não quer pegar o Vitor Belfort de novo... Todo mundo quer ver Anderson x Jon Jones, mas sempre que perguntam para ele, ele diz que não quer, que está tiozão... Como você vê isso?

-É estratégia. Virou um negócio. Não é mais um negócio de "sou valente, brigo com qualquer um". São poucos que fazem isso. Virou negócio. Por dinheiro, ele luta com a mãe dele (risos). Tem que dar a quantia certa.

Você acha que isso é para valorizar a luta?

-Claro! Virou negócio hoje. É a luta dos sonhos. Ele sabe disso. Para que ele vai lutar barato? "Amigo, não estou interessado nessa luta, não quero." "Mas não tem ninguém mais para você ganhar." Problema é seu, o campeão sou eu. Arruma alguém. Não está errado não. Virou um negócio. "Mas então vou te pagar três vezes mais." Opa, vamos conversar então! Só três? Se botar quatro, eu luto. "Está bom", então está bom. Virou um negócio.

Você estava falando de drogas, e um problema grande do MMA hoje é o das drogas de melhora de performance. Como você vê isso e como vê o controle que é feito. Acha que é suficiente? Deveria ser maior?

-Não faço parte da comissão, nem sei como é o teste, mas estão fazendo, fazem em todo mundo.

Como era feito na sua época? Não tinha teste no começo. Mas você chegou a ser testado no Pride e teve um exame positivo na luta com o Sakuraba. O que aconteceu naquela ocasião?

-(Faz expressão de incredulidade) Se você me seguir e ver o que eu como... Nunca subi desse peso, e nunca baixo, eu ando nesse peso e luto nesse peso! O teste, parece que dizem que foi tão acima do limite que nem conseguiram detectar a quantidade. (Gesticula mostrando sua forma atual) Olha isso! (risos) Como três refeições de frutas, café da manhã, almoço e jantar só disso, se deixassem! Não como nem sal, nem comida de panela.

E como era o exame antidoping nessa época?

-Era exame de urina antes e depois da luta.

Você sente falta de lutar, Royce?

-Às vezes sinto. Às vezes sinto. Às vezes dá aquela vontade, mas tem que saber a hora de parar. Aí faço um treino, faço uma corrida longa (risos).

Qual é o momento da sua carreira de que você tem mais orgulho?

-Ver os meus quatro filhos nascerem.

E na luta?

-Na luta? Ah tá... (risos). Não sei. Ganhar o primeiro UFC, três lutas numa noite? Nah.... Ganhar o segundo UFC, quatro lutas numa noite. Nah... Uma hora e 45 minutos no ringue com o Sakuraba. Não, deixa eu mudar... Akebono Taro. 220kg. Difícil escolher uma!

Fonte: Globoesporte.com


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